sexta-feira, 1 de maio de 2009

Sombras

Eu revisitei a sombra das árvores
Depois de ter visitado a sombra dos homens:
Quão mais afável é
E também mais simples de entender,
Pois nela se sente abrigado
E é só, e é tudo!
Na sombra dos homens se sente obrigado
E é de difícil entendimento:
E se é só, e se é tudo.

Mais um dia...

Tudo no seu devido lugar:
Aquela lembrança de um dia
Estilhaçada nalguma vidraça,
O sol sustentando-se no alto céu
E a vida migrando de um lado a outro.

Chegando a noite,
Ouve-se o murmúrio de um algo perdido,
E tudo fica parado
Como que esperando para recomeçar:

É nesse momento que os segredos são sussurrados
E os sentidos se dilatam
Para espreitar o silêncio
Divagando alguns passos na rua:
Toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc...

Soneto em dor menor

E mesmo a placidez do velho monte,
O lento andar do fogo pelo lenho,
O rio que sempre passa sob a ponte,
O rochedo em que o tempo fez desenho,

Também me mostram o que não retenho
Da límpida palavra de uma fonte,
Do pensamento mudo do horizonte:
A voz que falta ao canto a que me empenho...

E quando o sol fulgura desde cedo,
E quando o vento traz outra estação,
É quando me conta o tempo um segredo

De que a voz faltará à minha canção
Como inda há de se apagar do rochedo
O que fez ele e o mais sem conclusão...

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

(...)

(Mário Quintana)

Da primeira vez que me assassinaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha...
Depois, de cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha...

E hoje, dos meus cadáveres, eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada...
Arde um toco de vela, amarelada...
Como o único bem que me ficou!

Vinde, corvos, chacais, ladrões da estrada!
Ah! Desta mão, avaramente adunca,
Ninguém há de arrancar a luz sagrada!

Aves da Noite! Asas do Horror! Voejai!
Que a luz, trêmula e triste como um ai,
A luz do morto não se apaga nunca!

Olhos as minhas mãos

(Mário Quintana)

Olho as minhas mãos: elas só não são estranhas
Porque são minhas. Mas é tão esquisito distendê-las
Assim, lentamente, como essas anêmonas do fundo
[do mar...
Fechá-las, de repente,
Os dedos como pétalas carnívoras!
Só apanho, porém, com elas, esse alimento impalpável
[do tempo,
Que me sustenta, e mata, e que vai secretando o pensamento
Como tecem as teias as aranhas.
A que mundo
Pertenço?
No mundo há pedras, baobás, panteras,
Águas cantarolantes, o vento ventando
E no alto as nuvens improvisando sem cessar.
Mas nada, disso tudo, diz: “existo”.
Porque apenas existem...
Enquanto isto,
O tempo engendra a morte, e a morte gera os deuses
E, cheios de esperança e medo,
Oficiamos rituais, inventamos
Palavras mágicas,
Fazemos
Poemas, pobres poemas
Que o vento
Mistura, confunde e dispersa no ar...
Nem na estrela do céu nem na estrela do mar
Foi este o fim da Criação!
Mas, então,
Quem urde eternamente a trama de tão velhos sonhos?
Quem faz – em mim – esta interrogação?

domingo, 16 de novembro de 2008

O Auto-Retrato

(Mário Quintana)

No retrato que me faço
- traço a traço -
Às vezes me pinto nuvem,
Às vezes me pinto árvore...

Às vezes me pinto coisas
De que nem há mais lembrança...
Ou coisas que não existem
Mas que um dia existirão...

E, desta lida, em que busco
- pouco a pouco -
Minha eterna semelhança,

No final, que restará?
Um desenho de criança...
Corrigido por um louco!

domingo, 29 de junho de 2008

"Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na Segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada."
(...)

(Eduardo Alves Da Costa, do poema "No caminho com Maiakóvski")

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Poética

(Vinicius de Moraes)

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.
Nasce o Sol, e não dura mais que um dia

(Gregório de Matos)

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a Luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

"Liberdade – essa palavra
que o sonho humano alimenta:
que não há ninguém que
explique,
e ninguém que não entenda".
(Cecília Meireles)